Você deve levar mamãe e papai para o seu trabalho?

O Globo



Paul From estava habituado a encontrar os cônjuges e os filhos de funcionários em eventos da empresa. Como diretor executivo da Central Wire Industries, uma indústria de produtos metálicos baseada em Perth, Ontário, ele joga beisebol regularmente com seus empregados para conhecê-los melhor. Mas, nos últimos cinco anos, ele notou que seus funcionários na faixa etária dos 20 aos 30 e poucos anos começaram a trazer novos convidados para os eventos sociais da empresa: mamãe e papai.

Os millennials, como também são chamados os profissionais da Geração Y (pessoas nascidas entre 1981 e início dos anos 2000), são muito mais próximos de seus pais do que as gerações anteriores, e eles ganharam a fama de serem mimados e pedirem socorro aos pais no primeiro conflito, dizem os pesquisadores do mercado de trabalho. Mas, quando eles começaram a ingressar no mercado de trabalho no início de 2000, os gestores recusaram-se a deixar os pais se envolverem nas questões ocorridas no local de trabalho de seus filhos ou na procura de emprego.

Isso foi antes. Agora, algumas empresas começaram a abraçar o envolvimento dos pais e usá-lo para atrair e segurar talentos e aumentar a moral dos funcionários, mostra reportagem publicada pelo The Wall Street Journal.

Uma delas é a Northwestern Mutual. Michael Van Grinsven, diretor de desenvolvimento da firma financeira baseada em Milwaukee, diz que a empresa faz de tudo para acomodar os pais de estagiários, incluindo convidá-los regularmente para open houses.

“Tornou-se uma das melhores práticas”, diz Van Grinsven, ressaltando que os pais podem influenciar muito nas decisões de carreira de seus filhos.

Alguns gestores da Northwestern Mutual ligam ou enviam mensagens para os pais quando os estagiários atingem metas de vendas e costumam deixar os pais acompanharem os filhos nas entrevistas para ouvirem detalhes da oferta de emprego. Eles podem até mesmo visitar os pais em casa.

Van Grinsven diz que os esforços têm valido a pena: as vendas feitas pelos estagiários aumentaram mais de 40% desde 2007, uma melhoria de produtividade que ele atribui em parte ao maior apoio dos pais.

Em maio, o Google realizou o seu segundo evento anual “Leve seus pais ao local de trabalho”, recebendo mais de dois mil pais em sua sede de Mountain View, na Califórnia. Números mostram que o evento foi de grande valia para os empregados, diz a empresa.

Um estudo da PricewaterhouseCoopers, que entrevistou 44 mil pessoas de mais de 20 países, constatou, no entanto, que, nos EUA, apenas 6% dos recém-formados entrevistados queriam que seus pais recebessem uma cópia de sua oferta de emprego. Isso é bem abaixo da média global de 13% e muito menos do que em alguns outros países, onde ultrapassa os 30%. O estudo também constatou que apenas 2% dos jovens trabalhadores americanos gostariam que os seus pais recebessem uma cópia da sua avaliação de desempenho, em comparação com a média mundial de 8%.

Nate Kruse, um representante financeiro e diretor da unidade universitária da Northwestern Mutual, diz que a inclusão de seus pais no processo de contratação tornaram mais favoráveis a sua escolha de carreira. Sua mãe, Deb Kruse de Hildreth, Nebraska, conta que conheceu o coordenador de estágio de Nate na Northwestern Mutual quando ele foi à casa dela para se apresentar em 2008. Desde então, ela participou de diversos eventos da empresa, incluindo a reunião anual para os funcionários e suas famílias e até mesmo um open house no qual respondeu às perguntas dos outros pais.

“Meus pais não tinham certeza no começo”, diz Kruse. “Mas, conhecer o escritório lhes permitiu ficar muito mais confiante na empresa.”

A PwC também organiza recepções para os pais dos estagiários em alguns dos seus escritórios. E a Enterprise Holdings, uma empresa de aluguel de carros, oferece um programa de informação para os pais de estagiários e novos funcionários em seu programa de formação em gestão. Eles também permitem que os pais ouçam as ofertas de emprego.

Marie Artim, vice-presidente de aquisição de talentos na empresa, diz que o envolvimento dos pais pode ajudar com o processo de contratação. A empresa espera trazer mais de 8.500 recém-formados para seu programa de formação em gestão no ano que vem.

A pesquisa de 2012 com mais de 500 profissionais da Adecco, uma organização de recursos humanos, constatou que 8% deles foram acompanhados de um pai na entrevista de emprego, e em 3% dos casos o pai sentou ao lado do jovem profissional na entrevista.

O LinkedIn promoverá seu primeiro evento “Dia de trazer os pais” em seus escritórios em 14 países no mês de novembro, e planeja lançar guias para empresas que pretendem sediar eventos semelhantes. Após um piloto bem sucedido em Dublin, a porta-voz Danielle Restivo afirmou que espera que o evento ajude a aumentar a moral dos funcionários. Ela diz que os funcionários que têm o apoio dos pais são trabalhadores mais felizes.

Ainda assim, a atenção dada aos pais colocou alguns empregadores em uma posição desconfortável.

“Esta é uma situação estranha, para dizer o mínimo”, diz Jaime Fall, vice-presidente da Associação de Políticas de RH dos EUA.

Por exemplo, os executivos de RH têm de seguir as políticas de privacidade que os impedem de partilhar informações com os pais. Isso pode ser um problema quando um pai os procura perguntando por que seus filhos não conseguiram um emprego ou querem negociar salário, explica Fall.

O envolvimento dos pais, de fato, não é unânime. Lauren Bailey, uma pós-graduanda de 22 anos, da Universidade Estadual de Nova York, em Albany, diz que, se a empresa lhe desse uma carta para levar para seus pais, “ela se sentiria como se estivesse de volta à escola”. Ela também não consegue se imaginar levando seus pais para uma entrevista de emprego.

“Eu ficaria preocupada com o que eles falariam de mim”, diz ela. “Eu sei que sou jovem, mas em algum momento eu tenho que tomar minhas próprias decisões.”

Quanto à Central Wire Industries, Paul From diz que está tentando manter a mente aberta. Ele teme que trazer os pais para os eventos da empresa interfira na dinâmica social, mas a maior preocupação é garantir que a empresa tenha jovens talentos o suficiente.

Comentários (1)

Depende da relação de respeito entre os pais e o filho(a), com algumas condutas de ética dos pais e os mesmos saberem se comportarem, não vejo porque não aderir a novas e as mais variadas inovações e idéias, por mais aparente “estrambóticas” que possam ser.

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