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Empresas oferecem cerveja grátis no escritório

Folha


Durante a entrevista para uma vaga na Printi, uma gráfica que aceita pedidos via internet, Thiago Duarte, 32, foi informado de que teria benefícios comuns como vale refeição e também um inusitado: cerveja à disposição.

Duarte, que foi contratado como analista de planejamento e controle de produção, havia trabalhado por seis anos em uma companhia de impressões tradicional e nunca pode ingerir bebidas alcoólicas no trabalho.

“Estranhei um pouco. Apesar disso não ter sido fundamental para aceitar o trabalho, mostrou que a empresa dá liberdade aos funcionários”, lembra.

O caso de Duarte não é único. Empresas no Brasil estão adotando a prática de levar o “happy hour” para dentro do escritório.

Os empresários afirmam que isso faz com que o ambiente de trabalho fique mais descontraído e a equipe mais unida. Mas especialistas dizem que a medida deve ser adotada com precaução, em razão dos riscos do álcool para a saúde.

O alemão Mate Pencz, 26, presidente-executivo da Printi, estudou nos Estados Unidos e trabalhou no Vale do Silício (Califórnia).

“Usar a cerveja como benefício é muito comum lá. Quis trazer isso para cá, como forma de estimular a descontração após um dia todo de foco”, afirma.

A bebida fica disponível em uma geladeira, abastecida também com refrigerante.

Nas empresas, essa liberdade é tratada como um benefício, uma forma de deixar o funcionário mais confortável ou motivado.

Irandy Marcos da Cruz, especialista em carreiras e gestão e professor da Fiap (Faculdade de Informática e Administração Paulista), diz que um dos grandes desafios das companhias hoje é encontrar o melhor estímulo para os empregados.

“Para um jovem trabalhador de uma empresa de tecnologia, uma cesta básica pode não significar nada. Provavelmente ele vai preferir itens lúdicos, que ajudem na sua formação profissional ou promovam bem-estar.”

Outro fator fundamental é que esse estímulo seja coerente com os valores da companhia.

“A cerveja só combina com organizações menores, com hierarquias menos rígidas e que envolvam criação. Mas vale ressaltar que o funcionário vai ser cobrado do mesmo jeito”, afirma Cruz.

ANTES DO BRINDE

Na agência de marketing digital Cadastra desde 2011 existe a Beer O’ Clock (hora da cerveja, em tradução livre). Todas as sextas-feiras a partir das 17h é permitido tomar cerveja no escritório.

Thiago Bacchin, 32, presidente-executivo da companhia, diz que vê melhora nos laços de amizade da equipe por causa da ação. Mas há uma série de precauções.

“Antes de implantar o projeto, perguntamos aos funcionários se havia alguma restrição de saúde ou religiosa com o álcool. E só compramos uma ‘long neck’ por pessoa.”

Para Irene Azevedo, professora de liderança da BBS Business School, a bebida alcoólica também não pode ser encarada como o único benefício alternativo a ser concedido.

“O horário flexível, a permissão para deixar a mesa do jeito que se quer e a liberdade para dar sugestões são exemplos simples de uma liderança mais aberta. Sem ela, oferecer cerveja é uma bobagem”, diz.

Ela lembra que na França é normal as empresas permitirem que os empregados tomem vinho nas refeições.

“No Brasil isso é uma novidade, mas o ponto central é o líder entender o que realmente motiva seu liderado.”

O americano Joshua Kempf, 27, é outro que trouxe a cultura da “cerveja corporativa” para o Brasil quando fundou o Gaveteiro, uma loja virtual de itens para escritório, no ano passado.

A bebida é consumida no fim de cada dia, normalmente com salgadinhos. A reunião é aberta para clientes, investidores e convidados.

“É muito difícil medir o resultado desse tipo de medida. Mas é claro que criar ocasiões para que as pessoas troquem ideias ajuda na inovação”, defende.

Daniela Baeta, 36, vendedora da empresa, considera que outro ponto positivo da iniciativa é minimizar a dificuldade de reunir os colegas de trabalho.

“Marcar uma confraternização em São Paulo é complicado por causa da falta de tempo e da dificuldade de se locomover. Aqui não temos essa desculpa”, afirma.

A facilidade para se comunicar, contar uma piada em horas de tensão ou mesmo trabalhar feliz com o colega ao lado é o que Marcos Garcia Júnior, 31, cita como ganhos dessa estratégia.

Ele é gerente de marketing da Infinity, que presta serviços de administração para o mercado de entretenimento.

“Bebemos de quinta ou sexta-feira, no fim do dia, ouvindo música e cantando em um espaço com árvores. Acabamos conhecendo melhor cada um dos colegas.”

Esse otimismo não é compartilhado por todos. Luiz Edmundo Rosa, diretor de educação da ABRH (Associação Brasileira de Recursos Humanos), afirma que os problemas relacionados à dependência do álcool geram um risco grande que elimina as possíveis conquistas.

“O álcool é uma droga e o organismo de cada pessoa reage de uma forma a ele. Ele pode sim causar dependência, acidentes e violência para algumas pessoas”, afirma.

MEDIDA PERIGOSA

A OIT (Organização Internacional do Trabalho), por exemplo, estima que as drogas causam 20% dos acidentes de trabalho no mundo.

Além disso, Rosa lembra que a Justiça do Trabalho no Brasil costuma ser favorável aos trabalhadores, o que pode trazer grandes prejuízos às empresas.

“Um funcionário com problemas de alcoolismo ou que foi demitido pode alegar que foi induzido a beber e processar a companhia.”

Como alternativas para oferecer descontração no escritório ele sugere atividades como técnicas de respiração, meditação, ioga e exercícios físicos.

Não existe previsão legal quanto à ingestão de álcool em ambiente de trabalho no Brasil. A CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), no entanto, afirma no artigo 482 que “embriaguez habitual ou em serviço” pode causar demissão por justa causa.

Para Daniela Yuassa, advogada da área trabalhista do escritório Stocche Forbes, as companhias que oferecem cerveja no escritório têm que estabelecer políticas claras e amplamente divulgadas. Deve-se estabelecer limites de consumo por empregado, além de dias e horários.

Ela também aponta que, como essa prática tende a não ser unânime, é importante deixar claro que trata-se apenas de uma opção, e não uma obrigação.

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